Não é como se eu soubesse quem exatamente sou,

mas sei que nem sempre fui um esquisitão.

Acho que quando criança,

até antes da pré-escola, eu imaginava ser inferior às crianças mais velhas.

Incrivelmente isso me acompanhou até talvez meus 20 anos.

Talvez porque é quando de fato,

não há imposição de níveis, 

socialmente falando.

Dos 20 anos para frente,

tudo que se faz é autodeterminado.

Ao menos é o que eu consigo respeitar.

(é difícil respeitar quem passa a idade adulta obedecendo cegamente outras pessoas).

Então, 

é como se as métricas sumissem depois dos 20,

e nos fosse dado liberdade de julgar sucesso ou fracasso

a nosso bel prazer,

pois,

não há como medir sucesso e fracasso objetivamente.

O ponto é que,

eu me sentia uma pessoa comum antes da escola.

Mas, ao entrar em contato com as crianças

e perceber que entre elas eu me sobressaía,

me fez desenvolver um certo comportamento de me autoguiar desde muito cedo.

A menos que estivesse em confusão,

ou sem muita certeza do que fazer,

Eu me autoguiaria a todo santo momento.

Cultivei essa autodeterminação em mim desde cedo,

e acho que fui realmente marcante na vida de alguns professores por isso.

Diversas vezes,

em linguagens ou em exatas,

escutei muito que eu era uma espécie de talento desperdiçado

devido a mediocridade da turma.

Mas, honestamente, eu nunca me senti de fato desperdiçado.

Certamente eu conseguiria ir mais longe que a maioria em menos tempo,

mas nunca senti que aquelas coisas eram de fato meu futuro.

A medida que eu crescia,

eu me sentia cada vez mais na minha,

com meus próprios desejos, metas e sonhos.

Até meus 20 anos,

Eu nunca sequer vacilei sobre que tipo de homem iria me tornar.

A medida que eu crescia,

eu me sentia mais contente de ser um cara diferente

e esquisitão.

Tanto no visual descuidado,

quanto na maneira espantosa de pensar e encarar a realidade.

Fui acumulando toda sorte de esquisitice a medida que me desenvolvi.

Eu tenho um grande orgulho de gostar de animes,

e consumir as mídias desconexas que consumo,

de ter um estilo de vida noturno e estar bem com ele,

de ter decidido não me preocupar com trabalho,

de ter lido um monte de livros que interessam apenas a magos que cansaram da ordem das coisas,

de conseguir me encaixar em qualquer lugar – mesmo não gostando das pessoas

de escrever poemas,

de agir racionalmente por impulso quando quero algo

ou de assumir meus próprios transtornos e erros

de rir de piadas de humor negro,

de fazer as pessoas se sentirem desconfortáveis sobre minha sexualidade – mesmo sendo hétero e deixando isso óbvio

de rir de minhas próprias mazelas,

de não estar afim de morrer por coisa alguma,

de gargalhar sem qualquer pudor, como um vilão, quando me dá vontade,

de ser uma pessoa fora de série de tão boa quando quero,

de quase nunca me sentir solitário,

de instigar discussões por distorcer as palavras dos outros,

de ter na ponta da língua, vícios de linguagem que servem para qualquer porcaria que falarem comigo.

e de sustentar ideias que as pessoas consideram completa loucura.

Algo que me sinto grato,

é por ter cruzado com pessoas

que por vontade própria se aliaram a mim,

que me aceitaram,

ou se aprofundaram nesta criatura que eu sou.

Eu sempre me senti diferente demais para ser entendido

e essas pessoas foram como um grande suporte e aconchego para mim.

Eu as considero heroicas.

E gostaria que soubessem que é maravilhoso estar entre elas

Pois me sinto à vontade.

E sortudo.

Pois haverá quem nunca entenda o que é isso.

Hoje,

eu interpreto minha estranheza

como um sinal de que me amo profundamente desde sempre,

talvez esse amor sempre muito grande, seja a raiz dessa esquisitice toda.

Eu raramente senti que devesse ceder qualquer parte de mim pelo o que quer que fosse.

Sendo franco,

eu não acho que esse autoamor vá durar para sempre.

Afinal,

a vida é sobre empilhar arrependimentos,

e continuar andando rumo a alguma coisa.

Mas, lá dentro de mim, eu sei que

eu apenas amo a merda que eu sou.

Eu amo a merda super esquisita que eu sou.