Como já revelei em Memoráveis,
nasci em lar adventista,
então, desde garoto, eu fui influenciado, até certo ponto,
a buscar ser amigo de deus.
Tentarei definir fases desse relacionamento.
Em um primeiro momento, eu era garoto,
juntava as palmas das mãos para orar,
como um hi-five.
E admito que,
provavelmente, como muitas outras crianças
eu achava tudo que era referente a deus um saco.
Minha família fazia cultos em casa,
e meu pai sempre lia capítulo(s) inteiro(s) da bíblia.
Eu quase sempre dormia,
por achar aquilo um tédio.
Eu não entendia a maioria das palavras, e isso me fazia desinteressado.
Mas, sabia que meus pais consideravam deus algo sagrado e fora dos limites de qualquer brincadeira.
Se em casa eu conseguia dormir,
não era o mesmo na igreja.
Na igreja era pior.
Pois, minha mãe era daquelas que gostava de ostentar que os filhos tinham educação.
Diferente do culto em casa à noite,
na igreja, o culto era de dia,
e eu ainda dispunha de muita energia para gastar.
Eu não dormia,
ficava inquieto,
andando,
falando bobagem.
Quando saía dos trilhos, por malcriação ou pirraça,
levava uma surra ao chegar em casa.
Deus, na minha cabeça,
era uma pessoa boazinha e amorosa,
mas, eu acabava apanhando à toa quando ia à igreja.
Acabava por não gostar.
Deus, para mim, neste primeiro momento infantil, era uma figura distante,
porém, com uma aparência de solidez, difícil de definir.
Até hoje,
quando tento pensar sobre deus,
imagino uma espécie de colunas jônicas,
vinculado a um telhado imperial chinês,
ambos cinzas.
Eu sei que não faz sentido.
Mas, era essa a impressão que eu tinha.
Ainda nesta fase infantil,
um garoto da escola, Rômolo, me disse que a única coisa que ele tinha medo era Deus.
Eu nunca passei tão longe de entender uma opinião naquela época.
“Deus que deu a vida e Deus pode tirá-la”, dizia Rômolo,
eu insistia que se tinha algo a temer,
era para se temer o diabo!
Pois, Deus era bom.
Não discutimos muito,
pois não parecíamos entender os lados um do outro.
ERA COMO SE AMBOS FOSSEMOS ALIENADOS,
INCAPAZES DE EXPOR ALGO DE MANEIRA MELHOR.
E por, provavelmente, sermos ambos superficiais,
ouvir um ao outro,
em nada nos perturbou ou mudou.
Anos se passaram,
eu não ia à igrejas mais,
porém, entendia que deus era uma espécie de herói,
um herói que é relativamente ativo.
Não aparece sempre que solicitado,
porém, dá as caras quando se mais precisa.
Eu era otimista por pensar que coisas ruins nunca aconteceriam em minha vida,
pois deus sempre salvaria a pátria mesmo no último minuto.
Por pensar em deus dessa maneira,
era normal eu orar em horas super críticas.
Como por exemplo:
todo dia antes de dormir, para que deus me protegesse
dos espíritos malignos,
e de molhar a cama.
Lembro de pedir bênçãos para minha família também.
E o mais divertido,
a oração sempre acompanhava um:
‘em nome de Jesus’
É divertido pedir as coisas em nome de Jesus,
pois, quando se para pra pensar,
é como se você fosse um golpista fazendo dividas nas costas de um santo!
É tipo,
“Deus, faz aí,
Jesus vai pagar,
põe na conta de Jesus.”
Sempre fui mais pidão que grato,
religiosamente falando.
Mas, só recentemente, entendi que ficar pedindo coisas para deus,
é sumariamente estranho.
Quem deveria escalar as prioridades é deus,
não os mortais.
Se deus desse ouvido a mortais
e seus pedidos ingênuos distorcidos,
deus não seria grande coisa.
Bem,
deus não me dava ouvidos,
eu mijava na cama para caramba,
e foi assim por anos.
E até quase o fim da minha adolescência eu encarava deus como um herói oportuno.
Isso mudou quando eu tinha uns 16 ou 17 anos
e dei um tempo desse papo de Deus.
Fui viver a vida
e dei as costas ao aspecto religioso.
Evitava gastar tempo com qualquer coisa religiosa.
Trabalhei, estudei, paquerei, saí bastante.
E, às vezes, quando eu tinha de comparecer a algum templo cristão,
eu orava com certa ‘vontade’,
como alguém que vai dar muitas novidades a um amigo que não vê faz tempo.
Para mim,
foi mais ou menos por aí
que poderia dizer que tinha um relacionamento com deus.
Claramente,
antes eu me comportava mais como um dependente qualquer.
Em minha concepção,
ainda restava parte do ‘salvador de última hora’.
Mas, em algum momento,
eu comecei a orar como se estivesse de fato conversando com um igual.
Foi então que passei a ter orações de 10 a 15 minutos.
É divertido pensar que isso beira a esquizofrenia,
mas, naquela época,
eu pensava que meu jeito de se relacionar com deus
era superior a das demais pessoas
que pareciam ter algum prazer em se sentirem frágeis na presença do seu criador.
Uma série de louvores,
são louvores à fragilidade,
insuficiência,
mediocridade e pequenez humana.
Neste período eu comecei a desenvolver uma certa aversão
a essas declarações de carência afetiva humana,
e mantenho essa aversão até hoje.
Nesta fase de amizade com deus,
meu posicionamento teológico era de que deus,
um ser de uma magnitude além da imaginação,
havia planejado o melhor mundo possível para que vivêssemos.
Como se tivesse escolhido uma entre as infinitas linhas temporais,
a qual a maior quantidade de ‘bem’ ocorre.
Deus sabia que seria um mundo injusto,
ao mesmo tempo que qualquer outra possibilidade de mundo seria muito mais injusta e maléfica.
Uma visão estúpida,
reconheço.
Afinal,
ela ignora completamente a onipotência.
Isso é,
se deus quisesse um universo completamente livre
ao mesmo tempo que ele fosse completamente repleto apenas de ‘bem’ e ‘coisas boas’ por toda parte,
esse universo teria que acontecer no momento que deus o quisesse,
devido ao seu poder de
ONIPOTÊNCIA.
ISTO É,
TUDO É POSSÍVEL PARA DEUS.
Passada essa fase,
chegamos a minha última perspectiva sobre deus,
antes de me tornar cético.
Deus passa, então, a ser um ser excelente,
uma criatura que correspondente ao ideal de ‘BEM IDEAL UNIVERSAL’ platônico.
Ao mesmo tempo,
um deus sem muita atitude,
útil em fazer mágicas de boa sorte para quem ele quer.
Parece bem o tipo de pensamento que precede o ceticismo,
e faz sentido.
Pois, antes de ser cético,
eu entendia que, em certos aspectos,
são os humanos que traçam como será sua vida,
bem como, são os humanos também os que espalham miséria e fazem boas e más escolhas.
Então, não sobra muito espaço para Deus aqui.
Neste período eu entendia que são os hábitos dos humanos,
combinados com o fator sorte,
os responsáveis por seu fracasso, ou sucesso, em suas empreitadas.
Deixando claro que, chamo de sorte,
tudo aquilo que um individuo é incapaz de controlar em sua totalidade.
A parte que os humanos poderiam controlar
são os hábitos,
enquanto a sorte,
poderia ser manipulada por deus,
com suas bênçãos.
Neste período,
eu pedia bênçãos divinas para meus empreendimentos,
e minha mãe se emocionava ao ouvir minhas preces, às vezes.
Era uma combinação de conversa com um amigo,
ao mesmo tempo que
se tratava também de pedidos por mais e mais excelência
e companhia divina em meus caminhos.
Depois de algumas conclusões filosóficas,
isso também mudou.
Hoje entendo que a ‘sorte’,
na maioria das vezes, é na verdade eventos sociais ou naturais.
É verdade que, um indivíduo é incapaz de controlar a pluviosidade de um país até hoje (eventos naturais),
e, também, é incapaz de decidir quem será o próximo chefe de estado numa democracia (evento social).
Porém, isso não é definitivo.
Com tecnologia e experimentos sociais em excesso,
um individuo pode fazer até mesmo a natureza e uma massa de seres humanos se dobrarem a seus desejos,
fazendo assim que o fator sorte
desaparecesse.
E o último trabalho possível para deus neste mundo
também desaparecesse.
Atualmente, sou cético,
não acredito mais em deus.
Porém, mesmo hoje, às vezes, preciso fazer orações.
Eu as faço para pular a parte chata de dizer que não acredito em deus
e ser provocado/testado/amolado por gente que acredita.
(me custa menos tempo só fingir que acredito)
Minhas orações como cético,
levam em consideração a composição formal de uma oração.
Exalto deus em sua grandiosidade,
Faço um ou dois pedidos importantes,
agradeço a normalidade das coisas
e encerro.
Não costuma levar mais que 30 segundos.
Mas, é um saco.
