Hoje eu entendo que o mundo é injusto.
Desde garoto,
meu pai negro me alienava a favor dos trabalhistas,
e tudo bem.
Fui um adolescente rebelde de favela,
que estudou em colégio de elite do governo,
pois era público.
O colégio aceitava alunos por um sistema de pontuação em seus exames e, obviamente, os que dispunham de educação particular
tinham vantagem e entravam.
Passei sem estudos particulares.
E, quanto mais eu lidava com outros adolescentes criados em famílias ricas e importantes,
que tinham tido a melhor instrução disponível,
e que nunca haviam de ter passado dificuldade em vida,
eu entendia melhor dentro de mim
que os ricos jamais entenderiam a realidade de quem morava em uma favela.
HOJE EU ENTENDO QUE EU ESTAVA CERTO
Estamos há poucos séculos desde a abolição da escravatura
e a verdade é que o mundo parece um tabuleiro de banco imobiliário/monopoly,
no qual, os negros foram deixados participar 9800 anos depois do jogo ter começado.
Propriedades,
construções,
e meios de produção já distribuídos entre os primeiros jogadores,
que os firmaram com unhas e dentes
disputando contra outros primeiros jogadores.
Portanto são coisas que os primeiros conquistadores
jamais abrirão mão.
E neste mundo já conquistado,
os negros são convidados a rodar e rodar
voltando ao ‘início’
ciclicamente.
Eles recebem sua riqueza fictícia
para, imediatamente, retransferi-las
aos donos das casas,
e das companhias.
Trabalham a fio,
mês atrás de mês,
até o fim de suas vidas.
Alguns percebem que quanto mais se passam os anos,
mais perto da morte estão,
e ainda estão muito longe de ter qualquer propriedade tão valorosa
quanto os primeiros jogadores dispõem.
A maioria, finalmente, morre,
sem nem entender o porquê.
São levados a crer que é falta de oportunidade,
ou racismo,
quando, na verdade,
provavelmente, um mundo assim, jamais se equilibrará novamente.
Estamos em 2020,
e entre os bilionários do mundo,
o primeiro negro a aparecer está na 136ª posição,
por ter empreendido na fabricação de cimento,
e alguns commodities alimentícios
no continente africano.
Este homem é, sem dúvida, uma exceção neste mundo.
E ESTE MUNDO NÃO TEM CONSERTO.
Pois,
nenhum dos responsáveis,
e perpetuadores desse desbalanceamento miserável,
está vivo entre nós.
Todos os que causaram essa assimetria,
a fizeram há séculos,
isto é,
já morreram.
Nos restam apenas seus descendentes,
que, infelizmente ou felizmente,
são inocentes destes atos.
Alguns deles são carregados com sentimento de culpa.
Culpa até demais,
que nenhum negro consegue chegar perto de entender.
Aparecem propostas de como solucionar este mundo desigual
e, entre as elites, aparecem alguns propondo roubo e morte generalizada
como solução.
Se quer saber,
isso não me parece uma solução.
Parece para você?
