Por que mudamos tanto quando começamos a nos relacionar com alguém?

Eu não sei.

Lidamos, dia após dia, com pessoas no trabalho, 

na família, 

em instituições de ensino…

elas certamente nos influenciam.

Mas, porque quando se trata de um relacionamento amoroso,

de fato,

‘vale tudo’?

Espionagem de meios de comunicação;

chantagens de término;

gritaria explosiva por pouca coisa; 

acordo de penalização por traição;

manipulação sentimental e psicológica;

abuso financeiro;

testes e jogos;

entre tantas outras coisas que são incrivelmente recorrentes nos relacionamentos amorosos deste mundo.

No amor e na guerra vale tudo.

A maioria das pessoas nunca se imaginariam espiãs, 

chantagistas, 

abusivas 

e manipuladoras.

Pois, não são características que elas louvam em ninguém.

Mas, porque em algum momento, sob alguma tentação, 

elas decidem ceder e se tornar estas coisas?

É incrível,

existem milhares de conexões interpessoais acontecendo mundo afora agora mesmo,

e, na maioria das conexões mais rasas,

qualquer ‘minidelito’ citado anteriormente é incomum.

É precisamente nas relações desbalanceadas , 

e nas amorosas, 

que os delitos se repetem sem parar.

Por que permitimos os outros fazerem isso conosco?

Por que nos permitimos ser tão imorais?

Meu palpite é que, toda vez que humanos precisam, de fato, confiar em alguém mais que o usual,

acontece esse desbalanceamento nas relações interpessoais.

Se você parar para pensar, 

é incomum você pensar se confia o suficiente na caixa de supermercado

ao entregar 1,99 para ela, 

durante a compra de biscoitos.

Porém, é completamente diferente quando você vai comprar um carro usado.

A quantia de dinheiro é maior,

você avalia cada canto do carro,

pede para dar uma volta,

solicita contatos e documentos do vendedor,

pede os documentos oficiais do veículo,

nem vai ao local marcado ver o carro com dinheiro em mãos,

pela desconfiança de sofrer golpe.

Suspeito que no amor seja igual.

Suspeito que uma série de abusos 

e delitos amorosos 

partam do mesmo princípio.

Afinal,

há muito que perder quando se decide dividir suas horas de prazer em uma relação romântica.

Você pode questionar o ‘porque para as pessoas isso tem tanto valor?’

Minha primeira resposta é que você provavelmente conhece alguém que se casou cedo

e se separou ‘tarde’, 

quando já estava quase idoso,

ou mesmo idoso,

e reparou que dedicou seu tempo e esforços a alguém que não o merecia por anos.

QUE, PROVAVELMENTE, ESSA PESSOA

E, ATÉ MESMO VOCÊ, COMO MERO ESPECTADOR,

REPAROU QUE NÃO HÁ CONSERTO PARA O QUE ELA FEZ

Então sim,

relações amorosas são, talvez, as mais pesadas e difíceis de avaliar.

Justamente por significar, quase sempre,

entregar sua juventude a alguém.

Outro ponto é que,

no ocidente,

é requisito de um relacionamento amoroso,

EXCLUSIVIDADE.

Ou seja,

ao decidir em alguém para confiar e amar,

e firmar relacionamento,

só essa pessoa poderá receber este tratamento.

Uma pessoa com qualquer histórico de infidelidade,

ou comportamento que denuncie infidelidade,

não servirá para uma relação à dois.

A partir daí,

certa engenhosidade é empregada em descobrir se a pessoa é digna de confiança pelo parceiro, 

que não tem certezas ou garantias de fidelidade.

Imagino que parta daí a mudança de comportamento de muitas pessoas com seu namorado(a)

em relação às demais pessoas.

Ou seja,

é completamente comum para o amigo de João,

imaginar que por ele ser sensato no trabalho,

também seja sensato no relacionamento.

Porém, isso é um erro,

uma vez que o trabalho não requer o nível de confiança e entrega 

que um relacionamento requer,

João pode muito bem se comportar de maneira super invasiva e infantil em um relacionamento,

devido a essa condição de existência,

sendo chocante 

e, até mesmo, frustrante para qualquer amigo 

tentar olhar mais de perto a maneira como João trata a namorada em seus momentos mais críticos de desconfiança.

A necessidade de saber até que ponto uma pessoa é confiável

abre um leque de comportamentos abusivos

para quem deseja testar quão confiável é o parceiro.

A pessoa desconfiada entende que o que está fazendo é, muitas vezes, invasivo,

ao mesmo tempo que se vê sem alternativas.

Pois, ou ela faz isso,

ou resiste e continua sem respostas para a pergunta elementar:

“posso confiar nessa pessoa?”

Quase sempre é necessário ver para crer,

poucos são acostumados a ter ‘fé’ no amor.

Imagino que, toda vez que uma pessoa entre no jogo de tentar vigiar o parceiro,

ou de usar de artifícios para testá-lo,

essa pessoa sofra uma mínima deformação em seu caráter.

Também suspeito que, essa suave deformação moral, 

na vida de uma pessoa desconfiada,

abra caminho para uma sequência de retaliações desagradáveis e, 

às vezes, merecidas,

por parte do parceiro.

DESCONFIANÇA É UM CAMINHO SEM VOLTA!

Para o desconfiado não há um momento definido para parar.

Pois, o parceiro pode mudar,

coisas podem acontecer,

o parceiro pode conhecer novas pessoas,

e é necessário estar sempre e sempre se garantindo de estar com a pessoa certa.

Sempre tomando medidas para confirmar.

E só deus sabe onde essa sequência de atos de autopreservação,

e trilha de mágoas e discussões,

podem levar duas pessoas que se amam.

Confiar sem conhecer pode ser algo para sábios,

ou para tolos.

Não temos certeza sobre isso.

Mas, fica aqui

uma reflexão sobre o poder desastroso da desconfiança.